Um mistério chamado Lusitania

    Porque, afinal, a Inglaterra entregou seu maior trasatlântico aos torpedos de um submarino alemão? Setenta anos depois da I Guerra Mundia, a pergunta permanece no ar.

Reportagem de Geraldo Galvão Ferraz





História do Mar - Revista Naútica


Ele era o maior, mais veloz e sofisticado navio da época


    Kinsale é uma cidadezinha sonolenta à beira-mar, no sudoeste da Irlanda. Geralmente, o turista comum não tem muito oque fazer por ali. Um dos poucos passatempos é ouvir histórias sobre um grande navio  de passageiros, o Lusitania, que naufragou defronte à cidade torpedeado no dia 7 de maio de 1915. As conversas tanto podem recair sobre um lendário carregamento de ouro ainda não resgatado do transatlântico quanto enveredar por aparições dos fantasmas das 1201 pessoas que morreram no naufrágio. Com um pouco mais de sorte porém, pode se ouvir um relato ainda mais fantástico - e mais perto do real.
    Trata-se da história na qual o reporter inglês Colin Simpson, do jornal londrino Sunday Times, trabalhou durante 6 anos. Segundo sua pesquisa, o Lusitania, navio inglês, teria sido voluntariamente entregue, de mão beijada, no começo da I Guerra Mundial, pelo próprio Almirante Britânico aos torpedos do submarino alemão U-20, num episódio que mudou os rumos da história. De acordo com Simpson, o "sacrifício"  desse barco era chamariz de que precisavam os ingleses para atrair a participação dos Estados Unidos - até então um país neutro - como aliado na guerra. Afinal, dentro do Lusitania, no momento do ataque viajavam centenas de passageiros americanos. Destes, 128 morreram nas águas de Kinsale.
    Depois os alemães ainda tentaram contemporizar, prometendo indenizar os Estados Unidos pelos danos. De nada adiantou. A opinião pública se indignou e , embora os americanos só tenham entrado na guerra dois anos depois - no dia 3 de fevereiro de 1917 -, a morte daqueles 128 compatriotas foi, sem dúvida, o argumento desencadeador. A armadilha inglesa - sustentou Colin Simpson - deu ceto. Lorde Mersey, que, na época, presidiu o nebuloso inquérito sobre o afundamento do Lusitania, não teve qualquer dúvida a respeito: "Foi um negócio sujo do começo ao fim", comentou, com repulsa.
    Até hoje o assunto permanece polêmico - e a versão de Simpson é apenas uma entre muitas. Afinal, não é fácil montar o complicado quebra-cabeça uqe envolve o drama do Lusitania, iniciado a 7 de julho de 1906. Naquele dia, o navio, carro-chefe da linha de transatlânticos da companhia inglesa Cunard, foi lançado ao mar - e, imediatamente, reduzido o tempo de viajem de Liverpool e Nova York para cinco dias, navegando em uma surpreendente velocidade de 24 nós. Era um barco de um luxo impressionante. No seu interior, por exemplo, o salão de jantar fora inteiramente construído em estilo Luis XV e a sala de estar tinha painéis de mogno e lareira em mármore carrara. Possuía acomodações de primeira, segunda e terceira classes e, no total, a capacidade desse hotel cinco estrela flutuante era de 2 300 hóspedes mais 900 tripulantes. Sem dúvida, o maior - 240 metros de comprimento -, mais veloz e mais sofisticado navio de passageiros da sua época.
    O Lusitanis foi construido a partir de um acordo entre o Almirantado Britânico e a Cunard. Segundo os termos, em caso de guerra ele seria retirado do serviço de passageiros e convertido em cruzador armado. Por isso, tinha sua máquinas, caldeiras, depósito de combustível e controles vitais instalados abaixo da linha d´água, como qualquer navio de guerra. Ainda assim apresentava um grave problema técnico: era alto demais - daí ser apelidado de "galgo dos mares", numa referência ao esguio cão gaulês - e seus botes salva-vidas ficam suspensos 20 metros acima do nível do mar. Em caso de forte adernamento, poranto, seria impossível lançar a metade dos botes à água. O Almirantado, contudo, estava contente na eficiência do transatlântico, bem como na eficiência de seus outros navios, contra o poderia alemão.
    Mas essa confiança ficou seriamente abalada logo no começo da guerra (que eclodiu em agosto de 1914). Os cruzadores ingleses Abouhis, Hogue e Creesy foram  a pique, torpedeados por submarimos alemães. O Almirantado se deu conta, então, da impotência dos seus navios. E concluiram que os submarinos seriam essenciais na estratégia da guerra.

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O Aviso alemão: Qualquer barco inglês seria atacado

    Só que, nesse aspecto a frota nritância estava anacrônica. Ela somava 61 submarinos, mas apenas dezessete deles podiam se afastar da costa. Já a frota alemã chegava a 21 unidades desse tipo de embarcação - e todas ágeis, modernas e próprias para  longos percursos. Como enfrentá-las?
    Os ingleses chegaram a pensar numa barreira de redes e minas através do Canal da Mancha. bandonaram o projeto poque sairia caro demais. A única alternativa para proteger a costa foi então, usar algumas minas e criar um patrulhamento interativo. E assim foi feito.
    Mas a medida resultou ineficaz. A frota era muito heterogênea. Misturava barcos de pesca com lanchas e alguns iates. Pior: apenas uma em cada 85 embarcações desse tipo tinha rádio. As armas muitas vezes se resumia a rusticos rifles. As táticas até que eram criativas, mas rudimentares demais para enfrentar submarinos. Alguns barcos traziam dois homens: um com um saco preto e outro com martelo. A artimanha: cobrir o periscópio inimigo com o tal saco e, na sequência, quebrar o vidro com o martelo. Entre uma baforada e outra em seus longos charutos, o Lorde do Almirantado, Winston Churchill, mostrava-se inconformado. Para ele a solução era política: instigar os Estados Unidos a entrar na guerra, aliando-se aos ingleses.
    O capitão do Lusitania, William Thomas Turner, vivia, então, em compasso de espera. Em setembro de 1914, ele foi informado de que seu navio não seria utilizado como cruzador. Sua função na guerra, a partir dali, seria deixar os porões à disposição da Marinha para contrabandear armas e munição. O aumento de preço do carvão diminuíra a velocidade do transatlântico. O espaço para passageiros também se reduziu, bem como a tripulação, que encolhera para 258 homens.
    O capitão Turner não se sentiu muito confortável debaixo do seu chapéu de comandante em abril de 1915, quando o Lusitania partiu de Liverpool para Nova York, na sua 101a viagem. Primeiro, porque jamais se habituara ao quepe, apesar de experiente homem do mar. Ele preferia o chapéu-coco, o "bowler" - daí, aliás seu apelido "Bowler Bill" . O segundo motivo do seu desconforto foi a inspeção que fez no barco. Turner viu falhas nos botes e nos tanques de estabilidade - e exigiu algumas reformas. Mas a principal razão do seu mau humor era mesmo a ameaça de ataque contra o Lusitania. No dia 17 de Abril, o transatlântico partiu para os Estados Unidos, soprando inquietação por suas impotentes chaminês.
    A viagem transcorreu sem acidentes e, no dia 24, o Lusitania atracou em Nova York. Ali o capitão Turner bateu os olhos num anúncio assinado pela Embaixada Imperial Alemã e publicada em nada menos que cinquenta jornais americanos. A sucinta nota informava que os navios de bandeira inglesa, "ou qualquer um de seus aliados", estavam, a partir de então, sujeitos a ser destruidos. Era a oficialização de ameaça. Da Inglaterra, o capitão Hall, da Inteligência Naval, procurou tranquilizar Turner, deixando claro que tratara de armar um ostensivo patrulhamento na rota do navio e garantindo que o Lusitania poderia regressar sem maiores preocupações.
    Os alemães, porém já se posicionavam no Atlântico Norte. O último submarino a partir para a costa do Reino Unido foi justamente o U-20, que mais tarde decretaria o fim do Lusitania. Enquanto isso o "galgo dos mares" era carregado no pier 54 do porto de Nova York. Recebia uma estranha carga, que misturava quejos, 1 638 lingotes de cobre, manteiga e 51 toneladas de granadas, entre outras mercadorias. Um carregamento tão variado quanto altamente explosivo.
    No dia da partida 30 de abril, pouco antes do meio-dia, o capitão Turner, com o seu indefectível chapéu-coco, recebeu as instruções de viagem. Devia seguir a rota costumeira. Quando chegasse perto do porto inglês de Fasternet, o Lusitania receberia a escolta do cruzador inglês Juno. Aflito, um passageiro conseguiu chegar até Turner e perguntou-lhe sobre o risco da viagem. "Sempre há perigo", respondeu o capitão, "Mas a melhor garantia é o prórpio Lusitania e o fato que sua segurança está nas mãos da Marinha Real." Turner não sabia, mas quando seu navio zarpou dos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico, o submarino alemão U-20 também partia para Fastnet, na Inglaterra.

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O Almirantado Britânico desistiu de escoltar o Lusitânia





    No mesmo instante, na sala de mapas do Almirantado Britânico, acontecia uma reunião entre Churchill, o primeiro-lorde-do-mar Fisher e o almirante Oliver. Eles analisavam a situação. O submarino alemão U-30, segundo as informações, estava ao norte da Irlanda e não representava maiore perigo. A atenção agora tinha que ser direcionada para o U-20, na área de Fastnet. O cruzador Juno, já estava destacado para a região. Preocupado, Oliver alertou Churchill para o perigo de expor o cruzador inglês a um ataque sem escolta e sugeriu o envio de contratorpedeiros. Estranhamente, o Diário de Guerra do Almirantado termina aí - bruscamente - seu relato. O fato é que, depois, o Juno recebeu ordens de abandonar a missão. Consequentemente, o Lusitania ficou sem proteção alguma. Mas o capitão Turner nem sequer foi notificado disso. O que teria, afinal, acontecido? Sabe-se que Churchill e Fisher estavam mais preocupados com o front grego de Dardanelos. Isso, todavia, não era motivo para que simplesmente se esquecessem do Lusitania, deixando à própria sorte o maior navio inglês de passageiros.
    Por sua vez, Turner estava preocupadíssimo. No dia seguinte, ele entraria na zona perigosa de Fastnet e o aviso alemão nos jornais americanos não saia da sua cabeça. Foi então que surgiu um princípio de nevoeiro na região. O capitão decidiu que, se ele aumentasse, atravessaria o estreito Canal de São Jorge - entre Irlanda e País de Gales - durante a noite. A idéia era ficar distante de Fastnet, num curso de 20 milhas ao sul da costa irlandesa. Velho conhecedor daquelas águas, Turner sabia que podia seguir em frente, orientando-se pelos marcos do litoral. Como, por exemplo, a Cabeça Velha de Kinsale, um promotório rochoso.
    Naquele dia, o comandante do U-20, capitão Schwieger, anotou em seu diário de bordo que passara a sudoeste de Fastnet pouco depois das 14 horas. Seu curso era quase idêntico ao que Turner planejara para o Lusitania. Ao anoitecer, ele avistou a escuna inglesa Earl of Latham, que partira um pouco antes de Liverpool. Rapidamente, trouxe o U-20 à superfície, ordenou que a tripulação abandonasse a escuna e, em seguida, a fez explodir. O submarino alemão ainda tentou atacar um segundo barco inglês, que no entanto, conseguiu se esquivar a tempo, ajudado pelo nevoeiro. Temendo, então, uma resposta do patrulhamento costeiro inglês, Schwieger rumou para alto-mar. Pretendia passar a noite em segurança e na superfície. O Almirantado Britânico logo foi informado dos dois ataques alemães, mas não tomou nenhuma atitude.

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O Grande transatlântico desapareceu em 18 minutos

    Somente às 19 horas de 6 de maio o Lusitania soube que havia submarinos em atividade ao longo da costa sul da Irlanda. Imediatamente, Turner colocou seu navio em estado de alerta. A bordo a tensão era muito grande. Pela manhã, Turner começou a procurar o cruzador Juno, que deveria estar em algum lugar à frente, para dar proteção. A visibilidade, na ocasião, de 30 metros. O capitão fez soar a sirene do Lusitania, para se comunicar com outro barco. Mas, àquela altura, o Juno estava a pelo menos 100 milhas dali.
    Para "decepcionar" o Lusitania só havia o submarino alemão U-20. Schwieger subiu à superfície e rumou a toda a velocidade para Fastnet, Turner tamb~em mudou de posição. Ele recebera uma mensagem em código do almirante Coke, mandando que desviasse para Queenstown - oque acabou facilitando as coisas para o U-20. Era como se os dois barcos houvessem marcado um encontro no mar. Até hoje, o Almirantado Britânico nega a expedição da tal mensagem em código, apesar da evidência de uma cópia idêntica da estação naval de Valentina.
    No começo da tarde do dia 7 não havia mais nevoeiro e o capitão Turner pôde avistar a Cabeça Velha de Kinsale - sua referência de continente. À 1h40, com o periscópio, Schwieger viu alguma coisa, só que mais atraente: o Lusitania. Era um alvo fácil, movendo-se a 18 nós em linha reta. O U-20 preparou o torpedo. Enquanto isso, muitos passageiros do transatlânmtico já tinham terminado de almoçar no salão estilo Luis XV. Enquanto alguns se refestelavam no convés, aproveitando a tarde agradável, outros esperavam o café na sala de estar. Ao fundo, a orquesta de bordo tocava Danúbio Azul. O clima voltará a ser de tranquilidade, mas o desfecho estava próximo.
    Às 2h09, o U-20 atirou seu torpedo - uma bomba de 150 quilos. Um dos vigias do Lusitania chegou a ver a fenda branca abrindo-se célere nas águas e deu o alarme. Só que não havia como reagir. Precisamente um minuto depois, o petardo atingiu o transatlântico atingiu. Um pouco à frente da chaminé da proa, elevou-se um enorme jato d´água. Era o Fim.
    O próprio Schwieger se espantou com a facilidade com que o Lusitania sucumbiu ao torpedo. No diário de bordo do U-20, ele descreveu assim o que viu: "Ouve-se uma detonação singularmente forte e se ergue uma nuvem enorme. A explosão do torpedo deve ter sido seguida por outra. Talvez a caldeira, carvão ou pólvora. A superestrutura, acima do ponto de impacto, e aponte foram despedaçadas. O fogo irrompe e a fumaça envolve a ponte superior. O navio pára e aderna rapidamente para boreste, afundando simultaneamente na proa. A impressão é de que afundará em poucos minutos. Os botes salva-vidas são arriados e alguns chegam até a água. Há grande pânico. Alguns botes, completamente lotados, são arriados rapidamente. Caem na água de proa ou popa e afundam".
    A seguinda explosão relatada pelo comandante do U-20 foi a que arrancou a maior parte do fundo da proa do navio. Seria o carregamento de granadas ou o conteúdo duvidoso das caixas de manteiga e queijo? A resposta ninguém sabe. Sabe-se apenas que o Lusitania, afundou totalmente em 18 minutos - e que foram poucos os sobreviventes, porque fora difícil demais lançar ao mar os botes salva-vidas. Para piorar os barcos de resgate demoraram mais de 2 horas para chegar ao local, apesar da proximidade da costa. Na verdade, o Almirantado temia enviar o Juno e submetê-lo, também, ao fogo do U-20.
    Ao começar sua reportagem sobre o Lusitania, o jornalista Colin Simpson pensava apenas escrever sobre o lendário carregamento de ouro que teria submergido com o transatlântico. Mas acabou encontrando um fato muito mais valioso, algo forte o bastante para reabrir a polêmica sobre um dos lances mais marcantes - e chocantes - do século.


    Esta é uma carta do Lusitania de 18 de Outubro de 1908, de Nova York para Liverpool com carimbo de chegada de Danzig dia 28 de Outubro de 1908. Utilizando um inteiro postal de 2 cents, 1904 Sc U396 " Re-Cut Die",  selo da Fundação de Jamestown, 2 cents de 1907, e selo de 1 cent, Sc328, 1907, alusivo ao capitão John Smith.